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Serviço Social na Educação – Profa. Dra. Claudia Tenório esclarece dúvidas em entrevista

A inserção do Serviço Social na educação não é recente. A profissão fez parte da política pública da educação brasileira, pois as expressões da questão social rebatem diretamente na educação. Mas, em decorrência da Lei nº 13.935/2019, nunca se falou tanto sobre a relação entre o Serviço Social e a Educação. Por isso, convidamos a professora Dra. Claudia Tenório para esclarecer questões sobre o Serviço Social na Educação. Confira a entrevista abaixo!

1. Como você caracteriza a educação brasileira?

A entrevistada
Professora Claudia Tenório é Doutora e Mestre em Serviço Social pela PUC Rio e Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A educação brasileira exige atenção! Construímos um sistema educacional que historicamente foi desconectado com a realidade da população mais empobrecida. Os grandes educadores como Paulo Freire, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro sinalizavam isso e por isso propunham reformas substanciais. Ainda hoje não acertamos a fórmula, mesmo porque, as expressões da questão social, que atravessam a educação, se demonstram mais desafiadora ao longo dos anos. Por anos, o desafio era erradicar o analfabetismo (ainda é), ampliar o acesso, depois era a pobreza e fome, depois foi a violência nas escolas, e pôr fim às tecnologias na educação. Nenhum desses desafios foi superado, todos permanecem emblemáticos na educação pública brasileira.

Na educação privada também temos problemas, as estratificações criadas, onde quem pode pagar pouco tem um ensino pago, mas deficitário, restando aos mais abastados uma educação de qualidade. Nossos indicadores apontam necessidade de investimentos e reformulações, isso sempre foi assim. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) nos anos Iniciais do Ensino Fundamental, em 2019 foi de 5,9. O IDEB varia de 0 a 10 e a meta nacional era 5,7, mas ainda é preocupante em relação a outros indicadores. Por outro lado, a Taxa de Abandono Escolar nos anos Iniciais do Ensino Fundamental foi de 0,6, que representa a taxa de alunos que deixaram de frequentar o ano letivo, conforme dados do Cenário da Infância (https://observatoriocrianca.org.br/cenario-infancia/temas/ensino-fundamental/549-indice-de-desenvolvimento-da-educacao-basica-ideb-anos-finais-do-ensino-fundamental?filters=1,2108).

Então eu caracterizaria a educação brasileira como desafiadora!

2. Como se deu a aproximação do Serviço Social com a educação?

O Serviço Social esteve na educação antes mesmo de existir, como demonstra o livro Serviço Social: Identidade e Alienação da Professora Maria Lúcia Martinelli, quando ela fala do papel das precursoras da Sociedade de Organização da Caridade. Depois de profissão instituída, nossa atuação na educação era invisível, pois estávamos em outras políticas setoriais atendendo as demandas da educação, como na Assistência Social e Saúde, por exemplo.

No Rio de Janeiro, o Professor Ney Luiz Teixeira mantinha estudos na área desde os anos 90, pela UERJ. Temos uma trajetória que amadureceu e o reconhecimento com a Lei Nº 13.395, de 11 de dezembro de 2019 chegou com certo acúmulo de discussão da categoria, mas pouca divulgação dessas discussões. Fico feliz pois a lei provocou o adensamento desse debate. Eu mesmo tenho dado uma contribuição com o Curso Assistente Social na Educação. Ali aponto a trajetória, além de estratégias de articulação e intervenção para os profissionais. Quando idealizei esse curso, nos primeiros meses de 2019 e o lancei em abril de 2019, não havia indícios de que conseguiríamos emplacar a lei naquele ano, mas vi que muitos colegas de profissão estavam “antenados” e matricularam-se. Trata-se de um curso que é muito bem-conceituado entre a categoria.

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E precisamos entender que nossa atuação na educação não é apenas na escola. A autora Marina Abreu já sinalizou a função pedagógica do Serviço Social e isso atravessa a atuação profissional em diferentes áreas. O Assistente Social na educação também está no nível superior, nos programas de aprendizagem profissional, bem como nas atuações da educação não escolar em geral. Se olharmos para essas outras abordagens do Assistente Social na Educação teremos uma aproximação mais longeva.

O Serviço Social no âmbito educacional tem a possibilidade de contribuir com a realização de diagnósticos sociais, indicando possíveis alternativas à problemática social vivida por muitas crianças e adolescentes, o que refletirá na melhoria das suas condições de enfretamento da vida escolar (CFESS, 2001, p.10).

http://www.cfess.org.br/arquivos/SS_na_Educacao(2001).pdf

3. Caracterize o trabalho dos assistentes sociais na educação.

Somos profissionais da Educação, atuamos no processo de qualificação da aprendizagem. A partir de uma visão ampliada da aprendizagem, nosso fazer profissional contribui para que o alunado tenha condições de se manter na escola e obtenha o melhor aproveitamento na sua aprendizagem. A atuação multiprofissional propicia, na interação com os demais profissionais, o alcance de uma perspectiva integral para a comunidade escolar. O Assistente Social contribuirá na superação das deficiências socioeconômicas que impactam o cotidiano do aluno na escola, as relações familiares e com a comunidade escolar que impactam a aprendizagem, as estratégias de inclusão e assegurar de direitos sociais em geral. Sempre dentro das competências e atribuições privativas do Assistente Social. Acredito que esse seja um espaço que propicia muitas práticas criativas e inovadoras, possibilitando ao profissional se reinventar. Porém precisamos buscar formações que subsidie esse olhar.

No Curso Assistente Social na Educação é abordada a atuação com os objetivos do Desenvolvimento Sustentável, com a Mediação de Conflitos, com a rede Socioterritorial são abordagens que ampliam a atuação profissional. E o mais importante, contribuem para as múltiplas respostas que impactam o processo de aprendizagem do alunado. Os profissionais que já estão inseridos na educação estão sendo demandados de colaborarem com a retomada do ensino presencial, apoio no ensino remoto e híbrido e com a perspectiva da diversidade. São novas atribuições, próprias desse tempo. O que significa que o trabalho do Assistente Social tenderá a acompanhar as novas requisições que se apresentarem no cenário da educação, de tempos em tempos. Além de manterem as demandas tradicionais: Informação e Orientação (Relacionamentos Interpessoais, saúde, família, política, carreiras etc.), Cidadania e expressões da questão social e, a aprendizagem e Direitos Sociais.

O Assistente Social contribuirá na superação das deficiências socioeconômicas que impactam o cotidiano do aluno na escola, as relações familiares e com a comunidade escolar que impactam a aprendizagem, as estratégias de inclusão e assegurar de direitos sociais em geral.

Claudia Tenório

4. Como a lei n. 13.935/2019 impacta o Serviço Social?

Eu percebo 3 (três) pontos que devem chamar a atenção na lei: 1- “melhoria da qualidade do processo de ensino-aprendizagem, com a participação da comunidade escolar, atuando na mediação das relações sociais e institucionais.”; 2- Projeto Político Pedagógico (PPP) e 3º – Multiprofissionalidade / intersetorialidade. O primeiro e o segundo ponto estão relacionados. Para o Assistente Social, o PPP é um documento novo, ele faz mais sentido para os professores e pedagogos, porém ele é o documento institucional que apresentará os objetivos, metas e estratégias pedagógicas, o que significa que o Assistente Social, de alguma forma norteará sua intervenção na mediação com ele. Para isso, precisaremos entendê-lo e sua importância. Se vamos atuar no processo de ensino-aprendizagem, precisaremos conhecê-lo.

Na prática isso pode ser desafiador, pois demandará que as instituições e sistemas educacionais trabalhem com correntes teóricas educacionais mais abarcadoras dos contextos sociais. Quando a visão pedagógica educacional está muito restrita, do tipo biopsíquica. Muitos diretores escolares e gestores educacionais ainda possuem uma visão limitada, entendendo que os problemas da educação se resolvem principalmente em sala de aula e/ou nos muros escolares, tão somente. Os gestores educacionais precisam acompanhar a atualização na educação e buscarem ampliar o olhar para correntes biopsicossociais.

O terceiro ponto é o desafio de desenvolverem atividades com os demais profissionais da equipe multidisciplinar. Novas soluções, mas problemas antigos. O desafio de sair do nosso “quadrado “e buscar o diálogo com outros saberes. Sair do quadrado e romper os muros desafiando o Assistente Social a ter uma atuação pautada em múltiplas dimensões, além do universo escolar, mas buscando articulações intersetoriais. As articulações acontecerão principalmente no município e Estados com a Rede Socioterritorial: SUAS, SUS, Trabalho, Lazer, Esporte, sociojurídico etc.

5. Que dicas você poderia dar para estudantes ou interessados nesse espaço sócio-ocupacional do Serviço Social?

O mercado de trabalho está mais exigente em todas as profissões e exigem novas posturas. Precisamos pensar que a educação é muito mais que posto de trabalho, porém deve ser vista a partir da dinâmica da sociedade e suas requisições de especializações na divisão sociotécnica do trabalho. Eu sugiro que os interessados nessa atuação caminhem em 3 perspectiva: da articulação, da visibilidade e da formação complementar. Da articulação exige engajamento local em Conselhos de direitos, de políticas públicas e nas redes socioterritoriais, militando por sua qualidade e ampliação, lutando, inclusive por concursos públicos. Isso implica em conhecer a realidade local antes mesmo de ter uma inserção profissional. Esse conhecimento será um diferencial e trará o segundo caminho, o da visibilidade.

[…] a dica de ouro é nunca desistir.

Claudia Tenório

Nesse caso, vale a máxima: “Quem não é visto não é lembrado“, quando se é reconhecido como profissional atuante, as oportunidades chegarão. E o terceiro caminho é o da formação complementar. Os cursos livres e as especializações são importantes. Na educação é importante o Assistente Social conhecer a dinâmica das relações familiares, do desenvolvimento por faixas etárias, a organização da política pública, dentre outros conteúdos. E a dica de ouro é nunca desistir. O desânimo pode até aparecer, mas precisa ter seu tempo de duração, depois disso é recobrar a esperança e seguir cavando e buscando as oportunidades. Vejo que hoje em dia tem muita articulação, nesses movimentos todos ganham. Articule-se, seja presente e capacite-se!.

Subsídios para a atuação de assistentes sociais na política de educação

Ilustração do pdf
Leitura obrigatória (clique na imagem para acessar)

4 comentários em “Serviço Social na Educação – Profa. Dra. Claudia Tenório esclarece dúvidas em entrevista”

  1. Claudia Tenorio muito esclarecedor o tema abordado por vc,que mostra para a nossa categoria os assistentes sociais a importância da educação para todos,é relevante pois através do conhecimento o cidadão toma conhecimento do seu direito e dever como cidadão,e através da educação podemos modificar e construir um mundo melhor,é a melhor riqueza que o ser humano pode adquirir.

  2. Vânia Aparecida Claro

    Oi, meu nome é Vânia Claro, me grátis o em 2020, mas com a pandemia tudo ficou difícil, como tenho comorbidade tive que ficar em casa.
    Mas aproveitei para estudar, como tenho vontade de passar em concurso, assisto vídeo, tenho apostilas referente ao Serviço Social.
    Espero muito atua como assistente social, tenho esse sonho desde criança.
    Mas creio que Deus já preparou o meu lugar.

  3. Sou apaixonada pelo tema “serviço social na educação”; durante a graduação e pós graduação pesquisei e me envolvi através de estágios, onde foi possível realizar oficinas com crianças e adolescentes em vulnerabilidade social. Percebi a relevância deste trabalho, uma vez que a mediação entre família e escola gera uma ação transformadora.
    Iracema Franco

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