A violência social no Brasil assume formas diversas e interligadas. Das periferias urbanas aos territórios indígenas, observa-se um padrão estrutural marcado por desigualdade, disputa por recursos e fragilidade institucional. A partir do documentário De Boca em Boca e do debate sobre os direitos indígenas no país, é possível compreender como essas dinâmicas se conectam e revelam contradições profundas da formação social brasileira.
Violência urbana e exclusão nas periferias
O documentário De Boca em Boca (2017), dirigido por Wagner Abreu, retrata o cotidiano das periferias de Porto Alegre em um contexto de violência intensa, incluindo homicídios, torturas e conflitos relacionados ao tráfico. A obra reúne entrevistas com vereadores, jovens envolvidos no crime e um ex-detento, abordando trajetórias, expectativas de futuro e relações comunitárias em vilas e morros da cidade.
De Boca em Boca (Documentário Oficial)
O filme evidencia como a ausência de políticas públicas consistentes e a precarização das condições de vida contribuem para a reprodução de ciclos de violência. Ao mesmo tempo, revela estratégias de sobrevivência e organização comunitária que desafiam leituras simplificadoras sobre criminalidade e marginalidade.
A disputa por território e os direitos indígenas no Brasil
No campo, a disputa territorial constitui eixo central da violência histórica contra os povos originários. O processo de formação social brasileiro produziu expropriações sistemáticas e rupturas territoriais que afetaram profundamente a reprodução física e cultural desses povos.
Desde a colonização, a exploração econômica e a concentração fundiária promoveram expulsões e deslocamentos compulsórios. A Lei de Terras de 1850 consolidou a exclusão ao restringir o acesso à terra à compra, fortalecendo o latifúndio e ampliando desigualdades. Atualmente, conflitos persistem diante da expansão do agronegócio, mineração e grandes empreendimentos, que continuam a ameaçar territórios indígenas, ribeirinhos e tradicionais.
Avanços normativos e limites estruturais
Apesar da violência histórica, houve conquistas relevantes no plano jurídico. A Constituição Federal de 1988 reconheceu os povos indígenas em suas formas próprias de organização social, costumes, línguas e tradições, assegurando direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas . A demarcação territorial tornou-se elemento central para garantir subsistência, autonomia e continuidade cultural.
Entretanto, esses avanços convivem com contradições estruturais. Pressões políticas e econômicas, especialmente vinculadas ao agronegócio, colocam em risco direitos já consolidados, enquanto conflitos violentos e morosidade institucional seguem presentes.
Aproximações entre periferias e territórios indígenas
Embora situadas em contextos distintos, periferias urbanas e territórios indígenas compartilham elementos estruturais: marginalização histórica, desigualdade socioeconômica e exposição à violência. Em ambos os casos, observa-se a presença simultânea de violência direta e omissões institucionais que agravam vulnerabilidades sociais.
Professor universitário. Doutorando em Políticas Públicas. Mestre em Sociologia. Especialista em Gestão Pública Municipal. Especialista em Direito Previdenciário. Bacharel em Serviço Social e em Administração.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5220780303947208
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