Planejamento, escuta e registro ajudam a compreender as condições de vida e orientar o acompanhamento no Serviço Social, com respeito à privacidade das pessoas atendidas.
A visita domiciliar no Serviço Social pode contribuir para conhecer as condições de moradia, as relações com o território, as redes de apoio e as dificuldades de acesso a direitos. Sua realização precisa ter uma finalidade profissional clara, vinculada à demanda e ao acompanhamento.
Entrar na casa de alguém exige cuidado com a intimidade, com a forma de perguntar e com as interpretações produzidas. A organização dos cômodos, os bens existentes e os hábitos familiares, isoladamente, não sustentam conclusões sobre necessidades sociais ou capacidade de cuidado.
O Código de Ética profissional estabelece compromissos com a autonomia, a participação dos usuários, a informação e o enfrentamento do preconceito. Esses princípios orientam também o atendimento no domicílio. Consulte o Código de Ética do/a Assistente Social.
Antes da visita: definir objetivos e planejar
A primeira pergunta é: o que a visita pode contribuir para compreender ou encaminhar nesta situação?
Objetivos possíveis incluem conhecer barreiras que dificultam o comparecimento ao serviço, compreender necessidades de apoio ou aprofundar aspectos relevantes ao acompanhamento. A escolha deve considerar se uma entrevista no serviço ou outra forma de contato seria suficiente.
Como roteiro de planejamento, vale considerar:
- Demanda e finalidade: por que a visita está sendo proposta e quais questões precisam ser aprofundadas;
- Informações disponíveis: o que já consta nos registros e o que precisa ser atualizado;
- Contato prévio: sempre que possível, combinar dia e horário e explicar o motivo da visita;
- Participantes: avaliar quais profissionais precisam estar presentes e suas funções;
- Condições de realização: organizar transporte, tempo, acessibilidade e segurança;
- Roteiro de conversa: selecionar temas pertinentes, com espaço para as questões trazidas pelos moradores.
O planejamento também precisa considerar trabalho, responsabilidades de cuidado e outras atividades da família. Uma ausência no horário da visita, por si só, não permite concluir que houve desinteresse pelo atendimento.
Durante a visita: apresentar a proposta e escutar
Ao chegar, o profissional deve se identificar, informar a instituição à qual está vinculado e explicar o objetivo do encontro. É necessário verificar se as pessoas podem receber a equipe naquele momento e se há condições adequadas para conversar.
No atendimento habitual, a entrada deve ser autorizada pelos moradores. Se a visita não puder ocorrer, cabe compreender a situação e avaliar outro momento ou forma de atendimento, respeitando as particularidades da demanda.
Durante a conversa, algumas práticas podem favorecer a escuta:
- Utilizar linguagem clara e perguntas relacionadas ao objetivo do atendimento;
- Permitir que a pessoa apresente suas necessidades e prioridades;
- Evitar perguntas que já pressuponham culpa ou uma resposta esperada;
- Observar se a presença de outras pessoas compromete a privacidade;
- Explicar os encaminhamentos possíveis e seus limites;
- Evitar promessas de benefícios, vagas ou resultados que dependam de outros serviços.
A observação precisa ser contextualizada. Uma dificuldade de conservação da moradia, por exemplo, pode envolver renda insuficiente, problemas estruturais, adoecimento ou sobrecarga de cuidado. Compreender essas condições exige diálogo e análise.
Como evitar uma perspectiva fiscalizadora?
Uma abordagem fiscalizadora aparece quando a visita se transforma em busca de falhas, julgamento de hábitos ou tentativa de confirmar suspeitas previamente formuladas.
Para evitar essa direção, é importante revisar tanto as perguntas quanto os critérios usados na análise. Preferências pessoais sobre limpeza, consumo, religião ou organização familiar não devem funcionar como parâmetros de merecimento.
Fotografar ambientes, solicitar acesso a cômodos ou registrar detalhes da intimidade exige avaliar a necessidade e a pertinência para a finalidade profissional. Esses procedimentos não devem ser adotados automaticamente.
A visita deve produzir elementos para compreender necessidades, recursos e barreiras de acesso, preservando a participação das pessoas nas decisões sobre o acompanhamento.
Depois da visita: registrar com clareza
O registro precisa permitir que o trabalho tenha continuidade. Como sugestão de organização, pode contemplar:
| Elemento | O que registrar |
|---|---|
| Identificação do atendimento | Data, profissionais e participantes, conforme a necessidade do serviço |
| Objetivo | Motivo da visita e questões que orientaram sua realização |
| Relatos | Informações apresentadas pelas pessoas, identificando sua origem |
| Observações | Aspectos diretamente observados e pertinentes à demanda |
| Análise profissional | Relações entre as informações, o contexto e as necessidades identificadas |
| Continuidade | Orientações, encaminhamentos, acordos e questões a aprofundar |
É importante distinguir o relato da pessoa, a observação direta e a interpretação profissional. Também cabe indicar o que ainda não foi possível esclarecer.
Exemplo fictício de registro:
A usuária relatou dificuldade para comparecer aos atendimentos em razão do custo do transporte e da responsabilidade pelo cuidado de um familiar. Foi acordado verificar alternativas de horário com o serviço e retomar o contato na semana seguinte.
O trecho identifica a origem da informação e o próximo passo, sem atribuir desinteresse ou responsabilizar a pessoa pelas barreiras relatadas.
O Código de Ética protege o sigilo das informações conhecidas no exercício profissional e limita, no trabalho em equipe, o compartilhamento ao estritamente necessário. Esse cuidado deve orientar a circulação dos registros. Veja os artigos 15 a 18 do Código de Ética.
Como dar continuidade ao acompanhamento?
Após a visita, é importante avaliar se o objetivo foi alcançado, quais demandas precisam de resposta e o que deve ser discutido com a equipe ou com outros serviços.
Isso inclui acompanhar encaminhamentos e oferecer uma devolutiva compreensível à pessoa atendida. Quando houver obstáculos, eles também precisam ser analisados: entregar um encaminhamento não assegura, por si só, acesso ao atendimento.
As sugestões apresentadas devem ser adaptadas ao contexto de trabalho, às atribuições profissionais e às particularidades de cada situação.
Leia também no Portal: Modelos de instrumentais de Serviço Social.
Professor universitário. Doutorando em Políticas Públicas. Mestre em Sociologia. Especialista em Gestão Pública Municipal. Especialista em Direito Previdenciário. Bacharel em Serviço Social e em Administração.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5220780303947208
ResearchGate: https://www.researchgate.net/profile/Francisco-Garcez

